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sexta-feira, 4 de outubro de 2013

O perigo está nos "apenas Metadados"

Ultimamente, muito têm se falado nas espionagens dos órgãos de inteligência americanos e se você em nenhum momento pensou "E o que isso tem a ver comigo??", talvez não tenha percebido ainda a real gravidade da situação. Logo após o vazamento de informações sobre o programa de vigilância americano denominado PRISM, o presidente dos Estados Unidos teve de dar explicações ao mundo todo sobre o programa norte americano de vigilância que "tudo sabe, tudo vê". No Brasil, o problema se intensificou após a descoberta de que até mesmo as comunicações da presidenta Dilma foram espionadas (isso foi uma surpresa? Sério?). 

Programas desse tipo ferem nosso direito a privacidade de forma tão descarada, que fica difícil acreditar numa solução efetiva para a exposição indiscriminada dos nossos dados pessoais. Os documentos que aos poucos são liberados para a imprensa dão conta de programas de orçamentos milionários, utilizados para coletar dados de "terroristas" ao redor do mundo. Independente do fato de os agentes da NSA utilizarem o que há de mais tecnológico na espionagem americana para espionar seus cônjuges e amantes, abusos que, convenhamos, já deveriam ser esperados, tanto o embaixador americano quanto o próprio presidente Barack Obama afirmaram que os EUA coletam "apenas metadados" das comunicações de cidadãos estrangeiros (sei, sei), e mesmo assim, só dos suspeitos de terrorismo. Vamos supor por um instante que acreditamos no Papai Noel, no Coelinho da Páscoa, na Fada do Dente e na captura de "apenas metadados" das comunicações. Poderíamos dormir tranquilamente então, sabendo que não teremos nenhum tipo de violação da nossa privacidade?

Os Metadados podem ser definidos basicamente como "os dados que descrevem outros dados". Por exemplo, se estivermos falando de um livro, podemos considerar o autor, o título, a data da publicação, a editora, o valor e a quantidade de páginas como metadados desse livro. Veja que em nenhum momento, tivemos acesso ao conteúdo da obra. Ainda assim, de posse  dessas informações, certamente teremos uma ideia melhor sobre o tema do livro, bem como temos dados suficientes para tomar a decisão de comprá-lo ou não; o fato de saber que trata-se de um autor que admiramos, por exemplo, certamente influenciará  nossa decisão final. Transferindo-nos para o mundo digital, se pegarmos um arquivo qualquer no disco rígido do computador, podemos verificar seus metadados como autor, data e hora de criação, data e hora da última modificação, tamanho do arquivo, etc. Veja no exemplo abaixo, os metadados de um arquivo do Word (acessível facilmente acessando as propriedades do objeto via Windows Explorer).

Algumas vezes, precisamos de programas específicos para visualizar os metadados de um arquivo. No caso de uma foto, por exemplo, poderíamos utilizar o Exif Pilot para visualizar os metadados nela contidos. Veja na imagem abaixo que as informações do arquivo da foto incluem o fabricante e modelo da máquina fotográfica, orientação da imagem, data da criação, resolução, tempo de exposição do obturador entre diversas outras características.


Nesse programa, tivemos acesso também a informação (que é a foto), mas o que nos interessa para esse post é a quantidade de "apenas metadados" que essa foto mantém, e que acompanharão a foto onde quer que ela vá. A título de teste, baixe uma foto qualquer no Facebook e abra-a com o Exif Pilot para ver a quantidade de informações interessantes que podem ser obtidas da imagem. Em resumo, os metadados sumarizam informações básicas sobre os dados, o que pode facilitar a descoberta e o uso de determinadas instâncias da informação.

A essa altura você já entendeu o que são e para que servem os metadados, então vamos agora focar no seu uso. Os metadados podem ser usados de maneira idônea pois consistem numa série de informações que podem se mostrar importantes para uma tomada de decisão. Tomemos como exemplo, os logs de acesso de um servidor Proxy. Se a sua empresa possui esse tipo de serviço implementado na rede, independente de qual seja, ele revelará uma porção de metadados sobre a atividade na Internet dos seus usuários. Desde que a organização tenha uma PSI - Política de Segurança da Informação e que você tenha conhecimento formal dela, as suas ações na Internet podem (e eu diria "devem") ser monitoradas. Você pode inclusive ser repreendido com as sanções cabíveis na PSI caso não se comporte ;o). Quando seu chefe analisa seu relatório de navegação e os metadados lhe dizem que você ficou 6h da sua jornada de trabalho conectado ao Youtube, ele não precisa ver o conteúdo que foi acessado, pois os metadados já lhe deram muita informação relevante. Veja abaixo um exemplo de relatório gerado pelo SARG (Squid Access Report Generator), com os registros de navegação do usuário de um computador que tem o IP 192.168.2.128. Fonte da imagem.


Veja que os metadados não nos mostram as informações contidas nas páginas visitadas, porém é possível saber quais sites foram acessados, a quantidade de bytes transferida nessa comunicação, quanto tempo o usuário permaneceu nesse site e etc. No exemplo acima, o usuário permaneceu 73,03% do seu tempo de conexão no Netflix na data especificada. Essa informação permite aos gestores tomar uma atitude gerencial (uma advertência, por exemplo ;o)), sem nunca terem invadido a sua privacidade, afinal a informação principal, o conteúdo não foi acessado.

Podemos ver num outro exemplo, dessa vez no livro CISSP All-in-one Exam Guide de McGraw Hill,  um uso idôneo para os metadados nas operações de mineração de dados. Os metadados podem mostrar relacionamentos entre fragmentos individuais de informações não vistos anteriormente, mostrando padrões que antes não foram detectados. A mineração de dados ou datamining pode ser útil para detecção de fraudes de seguro, por exemplo.  Suponha que as informações, reivindicações e hábitos específicos de milhões de clientes sejam mantidas num datawarehouse, e uma ferramenta de mineração (mining) seja utilizada para detectar certos padrões nas reivindicações. Ele pode verificar que, toda vez que John Smith se mudou de um local para outro, ele acionou a seguradora 2 ou 3 meses após a mudança. Ele se mudou em 1967 e 2 meses depois sua casa teve um incêndio suspeito; quando ele se mudou novamente em 1973, passaram-se 3 meses e sua moto foi roubada; então ele se mudou novamente em 1984 e 2 meses depois um assaltante entrou na sua casa. Essas situações podem ser difíceis de serem detectadas visualmente pois ele pode ter tido diferentes corretores no decorrer dos anos, seus arquivos podem ter sidos apenas atualizados mas não revisados ou simplesmente suas informações não foram armazenadas num local centralizado para que os agentes pudessem revisá-las. O data-mining pode verificar dados complexos e simplificá-los através de funções matemáticas (lógica fuzzy e sistemas especialistas), procurando padrões nos dados que talvez não estejam tão aparentes. Portanto conforme o autor, "os metadados são mais importantes do que os dados dos quais foram derivados e devem ser muito bem protegidos".

Porém nem sempre a utilização de metadados é idônea e o perigo surge principalmente quando seu uso é aplicado para funções de "monitoramentos não autorizados", seja de crackers, empresas ou governos, (não limitando-se a esses, uma vez que os metadados estão em toda a parte). O mesmo McGraw Hill, numa outra obra entitulada Gray Hat Hacking - The Ethical Hackers Handbook, lembra que nos programas de compartilhamento de arquivos ponto a ponto, como o BitTorrent, que permitem que indivíduos no mundo todo compartilhem arquivos e programas aos quais eles não possuam direitos autorais, os metadados são imprescindíveis. Um site armazenará os metadados dos arquivos que estão sendo oferecidos, mas ao invés de os arquivos estarem disponíveis no próprio site, os arquivos estão armazenados no sistema do usuário que está oferecendo os arquivos. Conforme McGraw, essa abordagem distribuída não só garante que os servidores não serão sobrecarregados com solicitações de arquivos, mas também dificulta o rastreamento de quem oferece material ilegal.

Quando essas informações começam a ser exploradas por governos a situação começa a ficar muito pior. Conforme o professor Daniel Solove no seu livro "Nothing to Hide - The False Trade of Privacy and Security" existe uma complexidade a mais, pois geralmente não é suficiente proteger apenas os dados (conteúdo das mensagens), o perigo também está nos metadados. Se compararmos um e-mail a uma correspondência física, uma carta por exemplo, veremos que existe um esforço em proteger o conteúdo do envelope sem se dar conta de que a informação na superfície do envelope também é muito valiosa. Devíamos nos preocupar mais em manter privado "com quem" estamos falando ao invés de nos preocuparmos apenas com "o que" estamos falando. Em algumas circunstâncias o envelope, o "apenas metadados", pode ser o conteúdo. Nos e-mails, as informações de cabeçalho que mostram remetentes, destinatários, data e hora são as informações escritas no envelope e nesse contexto, são os metadados; já o corpo da mensagem é a carta em si, ou seja, a informação.  No processo de navegação porém, a história é mais complexa.
Imagine por exemplo, um cidadão chamado Antônio Almeida, que vêm tendo suas comunicações monitoradas regularmente por órgãos governamentais ("apenas os seus metadados"). A que conclusão você pode chegar quando analisa os registros de ligações telefônicas do sr. Antônio:

Não sei a qual conclusão você chegou, mas minha primeira impressão (bastante simplista) é que o sr. Antônio gosta de pão, tem problemas com seu veículo e é bastante chegado a família. Vamos agora analisar as informações de navegação do sr. Antônio:

 
 Baseando-se nos "apenas metadados" analisados  da navegação do sr. Antônio, a que conclusões você chega? Talvez, chegue-se a conclusão que ele tenha contraído HIV?

Bom, mas e se ele estiver escrevendo um livro, cujo personagem principal é soro positivo e está procurando grupos de ajuda? E se esse histórico foi na verdade, feito pela empregada doméstica, que aproveitou-se do fato de ficar sozinha na casa o dia todo e navegou nesses sites sem autorização/conhecimento do dono do computador?  E se... Bom, na verdade, o "E se" não interessa. O que interessa é que, independente de quem tenha feito o acesso, trata-se de informação privada, mesmo que sejam "apenas metadados".

Quando analisados os números de telefone que discamos, podemos ter informações reveladoras baseando-se em nossas ligações, mas a abrangência da nossa navegação, é muito maior pois em geral, nessa era da Internet, navegamos muito mais do que falamos ao telefone. Se alguém possuir uma lista de IPs aos quais você acessou regularmente no último mês, obterá bastante informações relevantes sobre você, muito mais do que os números que você disca. Os metadados terão fornecido informações suficientes para traçar um perfil sobre a sua pessoa (mesmo que incorreto), sem nunca ter interceptado suas comunicações.

Conforme Solove, quando um governo começa a coletar uma série de informações sobre seus contribuintes (atividades, interesses, hábitos de leitura, finanças e saúde), algumas das perguntas que ficam são:

- e se o governo achar, baseando-se no seu padrão de comportamento, que você tem maior probabilidade de cometer um delito ou tornar-se um criminoso?
- e se lhe negarem o direito de voar, como os americanos fizeram com sua no-fly-list?
- e se o governo achar que suas transações bancárias são inconsistentes e congelar sua conta bancária, mesmo que você seja inocente?
- e se o governo não proteger suas informações apropriadamente e seus dados forem roubados? (um estelionatário de posse de seu CPF, sua data de nascimento e o nome da sua mãe já pode fazer um grande estrago)

Quando se trata de Cloud Computing, por exemplo, Tim Mather afirma no seu livro,  Cloud Security and Privacy, que quando informações de uma empresa estão hospedadas na nuvem, além da segurança dos dados dos seus próprios clientes, sua empresa também deve se preocupar sobre quais dados o CSP (Cloud Service Provider ou Provedor de Serviços na Nuvem), coleta e como  eles são protegidos. No que se refere especificamente aos dados dos seus clientes, quais metadados o CSP possui sobre suas informações, como elas são protegidas e como a sua empresa tem acesso a elas? Ao passo que o volume dos seus dados em um provedor específico vai aumentando, também aumenta o "valor desses metadados". Além disso, seu CSP coleta e deve proteger uma grande quantidade de informações relacionadas a segurança, incluindo informações de autenticação e autorização. Quais dados seu provedor de nuvem coleta e como esses dados são monitorados e protegidos é muito importante para o próprio provedor, para fins de auditoria, além de serem muito importantes pra você, caso haja a necessidade de uma resposta a incidentes ou uma análise forense num crime digital. 

O importante é que você, enquanto usuário dessas tecnologias, entenda que não existe "apenas metadados". Em muitas situações, os metadados são tão ou até mais importantes que os próprios dados em questão e precisam também de proteção contra olhos bisbilhoteiros. A simples coleta deles não é algo que se possa considerar menos invasivo do que a captura do conteúdo da transmissão como quer nos fazer acreditar o presidente americano.

O jornal The Guardian criou um guia para que você possa saber o que são os metadados nos programas e dispositivos mais comuns, que usamos no dia a dia e que o governo americano pode estar coletando (o documento original pode ser visto aqui):

e-mail:
  • nome, e-mail e IP do remetente;
  • nome e e-mail do destinatário;
  • informações de transferência do servidor;
  • data, hora e fuso horário;
  • identificador do e-mail e e-mails relacionados;
  • tipo de conteúdo e codificação do e-mail;
  • registros de login do cliente de e-mail (com endereço IP);
  • cabeçalhos do cliente de e-mail;
  • categorias e prioridades;
  • assunto do e-mail;
  • status do e-mail;
  • solicitação de confirmação de leitura;
Telefone:
  • número de telefone de todas as chamadas recebidas
  • números seriais dos telefones envolvidos;
  • hora da chamada;
  • duração da chamada;
  • localização de cada participante;
  • IMEI dos dispositivos envolvidos;
Câmeras:
  • identificação do fotógrafo;
  • data e hora da criação e modificação;
  • local onde a foto foi batida;
  • detalhes sobre o conteúdo da foto;
  • informações de copyright;
  • fabricante e modelo da câmera;
  • configurações da câmera: velocidade do obturador, tamanho do foco, tipo de flash;
  • dimensões, resolução e orientação da foto;
  Facebook:
  • Seu nome e informações do perfil, incluindo data de aniversário, cidade natal, histórico de trabalho e interesses;
  • nome de usuário e identificador único;
  • suas assinaturas;
  • sua localização;
  • seu dispositivo;
  • data da atividade, hora e fuso horário;
  • suas atividades, suas curtidas, checkins e eventos;
Twitter:
  • seu nome, localização, idioma, informações do perfil e url;
  • quando você criou sua conta;
  • seu nome de usuário e identificador único;
  • localização, data, hora e fuso horário de onde você tweetou;
  • ID único do tweet e ID do tweet respondido;
  • ID dos contribuintes;
  • seus seguidores, quem você segue e seus favoritos;
  • seu status de verificação;
  • aplicação que enviou o tweet;
 Google:
  • suas buscas;
  • resultados que apareceram nas buscas;
  • páginas as quais você visitou a partir dessas buscas;
Navegadores em geral:
  • sua atividade, incluindo páginas visitadas e quando você as visitou;
  • dados do usuário e detalhes de login com possíveis recursos de auto completar;
  • seu endereço IP, provedor de serviços de Internet, detalhes do equipamento, versão do browser e do sistema operacional;
  • cookies e dados de cache dos sites visitados;
A esses exemplos citados pelo The Guardian, podemos citar ainda:
Arquivos de música:
  • artista;
  • título da faixa;
  • número da faixa
  • gênero musical;
  • álbum ao qual pertence;
  • capa do disco;
  • data da gravação;
  • gênero musical;
  • capa do disco;
  • letra da música;
Documentos:
  • título;
  • assunto;
  • categorias;
  • comentários,
  • tipo de conteúdo; 
  • contagem de caracteres, de linhas, de parágrafos e de páginas; 
  • idioma; 
  • caminho da pasta de armazenamento;
  • data de criação e modificação;
  • atributos;
  • proprietário;
  • computador;
Pensando nisso, pesquisadores do MIT Media Lab desenvolveram o Immersion, um site onde você pode correlacionar os metadados da sua conta de e-mail do Gmail, Yahoo ou Exchange, para visualizar que tipo de informação seus metadados podem fornecer. Trocando em miúdos, brincar um pouco de PRISM ;o) É surpreendente vermos que, sem acessar o conteúdo dos e-mails, essa correlação é capaz de traçar círculos de convívio distintos (familiares, amigos, etc), pessoas com as quais nos relacionamos com maior frequência (grau de proximidade), quantidade de amigos e outras informações. Na imagem gerada abaixo o período por mim definido foi de agosto de 2004 a maio de 2011, ou seja, um estudo mais meticuloso desses metadados podem definir inclusive quando comecei a estreitar relações (ou me afastar) de "Fulano, Beltrano e Ciclano".


E ainda mais informações sobre sua comunicação relacionada com uma pessoa específica, como o exemplo abaixo, onde é possível ver inclusive quando foi o primeiro e-mail trocado entre vocês. Como a própria página do Immersion comenta: "A Internet não é mais apenas uma tecnologia do presente, mas também um registro do passado".


Segue aqui portanto, um link onde você pode optar por diversas ferramentas que ajudam a melhorar a segurança das suas comunicações https://prism-break.org/ geralmente migrando suas comunicações para protocolos que fornecem criptografia (o que registre-se, não é solução definitiva).

Na pior das hipóteses, você pode fazer como os russos e comprar máquinas de escrever para evitar espionagem. É "roots", mas deve funcionar ;o)

t+

Cristiano
"A grandeza não consiste em receber honras, mas em merecê-las." - Aristóteles 

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

Estamos vivendo o fim da privacidade.

Acho que fui um dos poucos leitores que não gostou muito do famoso "1984" de George Orwell, dada a ênfase à obra que se nota ao dar uma rápida "googlelhada" sobre ela. Li em duas semanas e não achei "tudo aquilo", mas a julgar pelas minhas preferências literárias na época da leitura, certamente não posso ser enquadrado como um bom crítico ;o). Porém não gostar, nem de longe significa não assumir que se trata de uma obra inteligente e que nos faz pensar sobre diversos temas relacionados à privacidade, ao domínio totalitário de governos (nem sempre, ou melhor, quase nunca bem intencionados), a burrice na coletividade de pensamento, e etc. Então pegando o gancho do livro, quero falar um pouco sobre privacidade.

Uma procura rápida sobre o termo me rendeu as seguintes definições:
Link 1 - Intimidade pessoal ou de grupo definido de pessoas.
Link 2 - É a habilidade de uma pessoa em controlar a exposição e a disponibilidade de informações acerca de si.
Link 3 - Vida privada; intimidade.
Link 4 - Ainda conforme o Mini Aurélio, Privacidade = Intimidade.

Note que "intimidade" aparece em 75% das definições encontradas, ou seja, podemos definir "privacidade" como algo "pessoal", "íntimo", algo que diz respeito apenas a nós mesmos e que, conforme nosso julgamento, não interessa (ou pelo menos não deveria interessar) a outras pessoas. Porém analisando o segundo item, "habilidade de uma pessoa em controlar a exposição e a disponibilidade de informações acerca de si", a única coisa que me vem a cabeça é: sejam todos bem vindos ao fim da privacidade, pois é simplesmente algo "impossível" de ser controlado. Por mais que nos esforcemos em manter nossas informações privadas, são simplesmente tantos serviços correlacionando nossas informações por aí, que é praticamente impossível uma empresa ou órgão governamental com autoridade o suficiente, não encontrar algo que classificamos como "privado" a nosso respeito. Isso é claro, quando existe um esforço da nossa parte em proteger nossa privacidade, o que nem sempre é verdadeiro.

Tomemos as redes sociais como exemplo. Se você acha trabalhoso ou "perda de tempo" configurar suas preferências de privacidade numa rede social, pense em quantas pessoas você só conhecia de dar "bom dia" no elevador ou de conversas casuais sobre o clima e que hoje sabem quantos filhos você tem,  que tipo de música você gosta, quem são seus amigos mais próximos e quais viagens você fez nos últimos meses, apenas por tê-los adicionado numa rede social. Se você não restringe suas informações, não precisa sequer adicionar essas pessoas; elas podem acompanhar a sua vida anonimamente se suas informações forem públicas. Se considerarmos que a população da Argentina gira em torno de 45 milhões de habitantes e que somente a quantidade de brasileiros no Facebook ultrapassa os 67 milhões de pessoas, note que esse é público que pode acompanhar a sua vida, caso você não filtre quem tem acesso aos seus álbuns, postagens e etc. Preocupante não? Mas não se engane, hoje em dia a batalha não é só contra crackers, engenheiros sociais e bisbilhoteiros de Internet, pois os governos também já perceberam o poder da Internet para finalidades de vigilância e monitoramento dos cidadãos.

Em julho de 2013, por exemplo, o Governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral, editou um decreto criando a Comissão Especial de Investigação de Atos Violentos em Manifestações Públicas (Ceiv), que entre outras considerações, dava poderes à comissão para obrigar as operadoras de telefonia e provedores de internet a atender com prioridade, no prazo máximo de 24 horas, os pedidos requisitados pela Ceiv. Com um pequeno detalhe: sem ordem judicial. Obviamente (e ironicamente), também em menos de 24 horas essa medida foi rechaçada, contudo é importante notar que se você está preocupado com pessoas e empresas bisbilhotando sua vida na Internet, saiba que os governos também estão nessa disputa, e não é de hoje.

Conforme o criptólogo e especialista em segurança Bruce Schneier afirmou na Conferência RSA de 2013, "O Google já sabe mais sobre os meus interesses do que minha esposa." (numa tradução livre).  De fato, as informações que as gigantes Google, Microsoft, Facebook e diversas outras empresas armazenam sobre nossas vidas, extrapolam e muito o que podemos definir como "público". É verdade sim que em muitas dessas ferramentas, podemos escolher o que é público/privado, fazendo com que nós usuários esbarremos com certa frequência nos erros de configuração, mas será que o que definimos como "privado" é efetivamente respeitado? Somente nós temos acesso a essas informações? Se há algo que podemos aprender sobre esses sucessivos escândalos sobre privacidade na mídia é que simplesmente não a temos. Se um órgão de inteligência do governo americano quiser saber o que você posta no Facebook, o conteúdo dos e-mails que você manda pelo Gmail, quais suas atividades na nuvem, ele vai saber e ponto final, basta você digitar "PRISM" no Google e ver de que maneira isso já está acontecendo. A responsabilidade de proteger nossas informações na nuvem, responsabilidade esta que deveria recair sobre os fornecedores dos serviços oferecidos, no frigir dos ovos está recaindo sobre nossa habilidade de utilizar serviços criptografados nas comunicações; e convenhamos que, apesar de eu também achar que os usuários precisam ter uma preocupação maior com segurança da informação, estamos falando de uma grande maioria de usuários que não se preocupa sequer em criar senhas decentes para acesso aos serviços. 

Confesso que já cheguei a pensar que o foco da discussão seria justamente no questionamento de "qual o problema em se abrir mão de um pouco de privacidade em nome da segurança", afinal estamos gradativamente sendo filmados e monitorados por câmeras onde quer que estejamos. Cheguei a pender bastante para o ponto de vista do Scott Adams, criador do personagem "Dilbert" (aquele das tirinhas de jornais), que no seu blog colocou um post intitulado "Crime and Privacy". Entre outras coisas, nessa postagem  ele afirma que (trechos numa tradução livre):
"A única razão na qual a aplicação da lei pode se dar ao luxo de agir contra usuários de drogas, prostituição ou jogos ilegais, por exemplo, é porque apenas 1% desses crimes são detectáveis.  Se a polícia pudesse, por mágica, saber quando alguém violou uma lei de prostituição ou uso de drogas, o volume seria tão grande que eles acabariam ignorando toda uma classe de crimes por razões puramente práticas. E é para onde estamos indo. 

Ironicamente, quanto mais o governo reprime a privacidade individual, mais liberdade os cidadãos terão. Quando o governo puder detectar cada tipo de crime, será forçado pela opinião pública e pelas restrições de recursos a legalizar tudo o que puder detectar mas não puder parar."
(...)

"Eu sei de posts passados sobre esse assunto que terei um monte de votos contrários pois você detesta a ideia do governo reduzindo sua privacidade. Vamos combinar que todos temos o pressentimento de que a privacidade é uma coisa boa e que queremos mantê-la. O que estou propondo hoje é a ideia de que quanto menos privacidade você tiver, mais liberdade você terá ao mesmo tempo.

Considere por exemplo o movimento dos direitos dos gays. A geniosidade dos pioneiros dos movimentos homossexuais foi que eles aumentaram sua liberdade pois voluntariamente reduziram sua privacidade. Ao "sairem do armário" em grande número, os gays tiraram do governo a habilidade de vilipendiar suas atitudes e homossexualidade em geral. Simplesmente haviam muitos cidadãos gays para serem ignorados ou presos. A sociedade necessariamente começou a se adaptar e continua se desenvolvendo".
 (...)

A longo prazo, a privacidade já era. Mas o que você terá em troca é mais liberdade pessoal e menos crimes. Esta é uma troca que ninguém faria voluntariamente, mas acredito que será uma boa."

É um argumento que sim, faz bastante sentido, mas conforme o pessoal do podcast Segurança Legal, comenta no seu episódio 28, segurança e privacidade precisam caminhar juntas, não devemos abrir mão de uma em função da outra. E mais, o que diferencia o cidadão comum do bandido, é que o bandido não segue leis. A partir do momento em que temos um governo que ignora as leis e direitos dos cidadãos (o seu direito a privacidade, por exemplo), ele está agindo como um bandido, simples assim. Nesse mesmo podcast, os autores indicam o livro "Nothing to Hide - The False Trade of Privacy and Security" do sr. Daniel J. Solove. E confesso que aquele resquício de conformidade que eu tinha em abrir mão da minha privacidade em nome da segurança foi dissipado após ler esse livro, pois trata-se de uma obra muito bem fundamentada e embasada. 

Daniel J. Solove é professor de Direito da George Washington University, e o argumento utilizado por Scott Adams transcrito acima, se encaixa perfeitamente no tema central do seu livro: "Nada a esconder". A grande questão é que esse tipo de argumento tem como premissa que a "privacidade" trata-se de esconder coisas erradas, e sabemos que isso não é verdade. Se estou desenvolvendo uma fórmula ultra secreta de um produto, por exemplo, não é ruim ou errado o desejo de manter essa informação confidencial, porém quanto mais o governo cercear a minha liberdade individual, mais risco eu tenho para manter a fórmula efetivamente "secreta". Além disso, num trechinho do livro do sr. Solove que pode ser lido aqui, ele exemplifica bem seu ponto de vista comparando o livro de George Orwell ao livro "The Trial" de Franz Kafka. 

No livro de Kafka, a trama gira em torno de um homem que é preso sem ser informado o motivo. A uma determinada altura ele descobre que existe uma corte misteriosa que vem investigando-o e tem inclusive um dossiê sobre ele, mas este é o máximo de informação que consegue obter. Conforme Solove, a questão que o livro aborda "é uma burocracia impenetrável, que usa informações das pessoas para tomar decisões importantes sobre o futuro delas, enquanto nega a essas mesmas pessoas o direito de saber como suas informações estão sendo utilizadas. (...) Logo, não se trata de uma questão apenas de vigilância, mas de problemas gerados pelo processamento de informações (armazenamento, uso e análise dos dados) além da coleta de informações. (...) Essa sensação não só frustra o indivíduo, criando uma sensação de desamparo e impotência, mas também afeta a estrutura social, alterando o tipo de relação que as pessoas têm com as instituições que tomam decisões importantes sobre sua vida."  Ou seja, no livro de Orwell, a ideia central é o monitoramento, enquanto no livro de Kafka, não se trata apenas de monitorar, mas de como as informações estão sendo coletadas, como serão utilizadas e como essa coleta/utilização será supervisionada.

Num outro exemplo do livro "Nothing to hide", ele explora o caso de um cidadão alemão de origem libanesa chamado Khalid El-Masir que foi aprisionado na Macedônia em Dezembro de 2003 após ter sido confundido com um suspeito de terrorismo que possuía o mesmo nome, além de a polícia local ter suspeitado do seu passaporte. Khalid foi entregue a CIA no mesmo ano, onde "apanhou, foi algemado, encapuzado e sodomizado" pelos agentes do órgão americano. O detalhe: sem conhecer as acusações contra ele e sem direito a defesa. Foi liberado após 5 meses como se nada tivesse acontecido. A Corte Européia de Direitos Humanos condenou a Macedônia a pagar 60 mil euros para Khalid: "A decisão foi comemorada pela Anistia Internacional, que classificou o julgamento como histórico. De acordo com a organização, foi a primeira vez que um Estado europeu foi considerado responsável por tortura praticada em seu território pelo serviço de inteligência dos Estados Unidos", conforme reportagem do JUSBRASIL. Porém a queixa apresentada por Khaled El-Masri contra a CIA foi indeferida pelos tribunais americanos, após o governo ter invocado o “privilégio de segredo de Estado”, que permite ao governo americano, impedir a liberação de qualquer informação num julgamento que, se fornecida, possa ameaçar a segurança nacional.

No livro, o autor rebate aos argumentos "Nada a esconder" pois eles concentram o debate num conceito muito restrito de privacidade, que se confrontados com a pluralidade de problemas de privacidade implicados pela coleta não autorizada de dados pelos governos, e sua utilização sem qualquer tipo de supervisão ou controle, transforma o "Nothing to hide" em "Nothing to say". 

O alemão Michael Friedewald, Coordenador do Grupo de Pesquisa ICT e Pesquisador - Consultor Sênior do Instituto Fraunhofer de  Pesquisa de Sistemas e Inovação - Centro de Competênia de "Tecnologias Emergentes", define em seu artigo "Seven Types of Privacy" (Sete Tipos de Privacidade) que a privacidade consiste de:

1 - Privacidade da pessoa: abrange o direito de manter as funções e características do corpo privadas (como códigos genéticos e dados biométricos). 

2 - Privacidade de comportamento e ação: abrange questões sensíveis como hábitos e preferências sexuais, bem como práticas religiosas e políticas. 

3 - Privacidade de comunicação: visa evitar  a interceptação de comunicações, como interceptação de e-mail, uso de escutas, gravação ou interceptação de comunicação pelo telefone ou redes, etc.

4 - Privacidade de dados e imagem: a preocupação é certificar-se de que os dados dos indivíduos não são disponibilizados automaticamente para outros indivíduos e organizações, e que as pessoas podem exercer um controle substancial sobre esses dados e sobre como são utilizados.

5 - Privacidade de pensamentos e sentimentos: as pessoas tem o direito de não compartilhar seus pensamentos e sentimentos, ou de ter essas sensações reveladas. Os indivíduos devem ter o direito de pensar o que quiserem.

6 - Privacidade de local e espaço: os indivíduos devem ter o direito de moverem-se em espaços públicos ou "semi-públicos" sem serem identificados, rastreados ou monitorados.

7 - Privacidade de associação (incluindo a privacidade de grupo): se preocupa com o direito que as pessoas tem de se associarem conforme seus desejos, sem serem monitorados por isso.

A questão é que, a despeito do fato de o conceito de privacidade ser muito mais amplo do que apenas "o que temos a esconder", estamos caminhando para um futuro onde a privacidade será um conceito obsoleto. Se você tiver mais de 30 anos e for uma pessoa atenta, certamente perceberá que o conceito de privacidade está mudando muito com as novas gerações. Antigamente quando fazíamos algo errado, combinávamos com nossos amigos que esconderíamos o ocorrido, desde que não fosse questão de vida ou morte, ou algo grave o suficiente ao ponto de que a fuga da responsabilidade levantasse dúvidas sobre nossas índoles. Hoje em dia, a gurizada vê os amigos fazendo coisas erradas e instantaneamente "RÁ: bati foto e vai pro Face!". Ou seja, temo que com as novas gerações, o conceito se torne ainda menos praticado do que o é atualmente.

Aliado a isso, num futuro muito próximo seremos facilmente identificáveis através de nossos carros conectados, celulares, óculos, relógios conectados e demais itens que a computação vestível terá a nos oferecer com o passar dos anos. Cada vez mais abrimos mão da privacidade em troca de pequenas funcionalidades, comodidades e experiências personalizadas sem se dar conta de que nossa "liberdade" pode ser facilmente tolhida com acusações como a de Khalid. Tudo isso, é claro, em nome da segurança. Conforme Michael Saden, autor de "Orwell: The Authorized Biography", se você está lutando uma guerra sem fim, terá também infinitas desculpas para bisbilhotar a vida das pessoas. Ora, não é tão difícil perceber que, tudo aquilo que não tem controle, é por definição, "descontrolado". Inclusive o poder que um governo tem sobre a coleta de informações dos seus cidadãos.

Se isso é bom ou ruim, convenhamos, já não importa mais. O importante é que já está acontecendo. No final das contas, o livro de Orwell não era assim tão ruim. Talvez se eu o tivesse lido com outros olhos, sabendo tratar-se de uma profecia e não de um romance, uma obra de ficção, eu o tivesse aproveitado melhor. Já estamos vivendo nossos últimos dias de privacidade. Bem vindas as "teletelas" ;o)

t+

Cristiano
"A grandeza não consiste em receber honras, mas em merecê-las." - Aristóteles 

terça-feira, 12 de março de 2013

Sniffers de Rede

Existem alguns programas chamados de sniffers de rede que, a grosso modo, podem capturar mensagens que trafegam por uma rede local de computadores, mesmo que elas não sejam endereçadas ao seu computador. Para entendermos melhor como eles fazem isso, é necessário que primeiro estejamos familiarizados com o "modo promíscuo" dos adaptadores de rede. 

Numa rede de computadores, todo o tráfego de broadcast ou tráfego não endereçado a sua máquina local é automaticamente descartado. Uma vez ativado o modo promíscuo, toda a informação da camada 2 dos pacotes é ignorada (enlace), e logo, todos os pacotes são aceitos pela máquina local, mesmo que não sejam endereçados a ela. Ou seja, um adaptador em modo promíscuo "aceita todos" os pacotes que chegam até ele.

O uso de sniffers era muito mais acessível quando se utilizavam hubs ao invés de switches nas redes, já que todo o tráfego nos hubs funciona em broadcast. Qualquer computador numa rede local usando hub, que tivesse um sniffer ativo, poderia "sniffar" a rede toda. Uma das grandes vantagens trazidas pelos switches é justamente trabalhar na camada 2 do modelo OSI, utilizando bastante comunicação unicast ao invés de usar apenas broadcast, aprimorando a segurança (sem falar na drástica redução de colisões). Na grande maioria dos sistemas operacionais atuais é necessário ter privilégios de administrador do sistema para ativar o modo promíscuo de uma interface de rede.

Definidos muitas vezes como "analisadores de protocolos", a utilização de um sniffer pode facilitar consideravelmente o trabalho de um administrador de redes, uma vez que o tráfego coletado permitirá uma análise do que se passa na rede em questão.

Através do uso de um sniffer podemos:
  • entender as características da rede;
  • ver "quem" está na rede;
  • determinar o que ou quem está utilizando a banda disponível;
  • identificar horários de pico de utilização da rede;
  • identificar possíveis ataques ou atividades suspeitas;
  • encontrar aplicações inseguras num determinado host;
A escolha de um bom sniffer, passa por alguns critérios como protocolos suportados, custo, interface amigável, documentação disponível, suporte do programa e etc. Basicamente, a operação de um sniffer se define pela coleta (ativa a placa de rede em modo promíscuo e captura pacotes), conversão (converte as informações binárias coletadas numa linguagem legível para o ser humano) e análise (analisa os dados capturados baseando-se nos seus protocolos). Um dos sniffers mais utilizados atualmente, disponível para ambientes Linux, Mac OS X e Microsoft é o Wireshark (que antigamente se chamava Ethereal), disponível em: http://www.wireshark.org/download.html.  Podemos ver seu logo na "Figura 1" abaixo:
Figura 1 - Logo do Wireshark

Sniffers como o Wireshark possuem uma interface gráfica bem intuitiva para quem trabalha com redes e está familiarizado com as camadas dos protocolos, conforme pode ser visto na "Figura 2".
Figura 2 - Tela do Wireshark
Existem também os sniffers que rodam em interface de linha de comando como o Tcpdump (lembrando que o Wireshark também pode ser executado via linha de comandos). É claro que é bem mais fácil utilizar os programas através de sua interface gráfica, mas isso não quer dizer que programas como o Tcpdump não cumpram bem sua função. Você pode ver a documentação completa do Wireshark, bem como vídeos de exemplos de sua utilização na sua página oficial em: http://www.wireshark.org/docs/. Você também pode ver  no blog do Seginfo um desafio prático de análise forense, que utiliza o Wireshark, como uma das ferramentas para solucionar o problema.

Uma questão importante a ser considerada é "Onde colocar o sniffer na rede?". Não é tão simples (ou pelo menos não deveria), colocar um computador numa rede cabeada de uma determinada empresa e sair sniffando pacotes. Como os dispositivos tratam o tráfego de maneiras diferentes, vejamos como faríamos para sniffar uma rede local cabeada que utiliza hub ou switch.

Rede local com Hub

Sonho de qualquer invasor. Basta conectar seu computador em qualquer porta do dispositivo concentrador, ativar o sniffer na sua máquina local e coletar tráfego de toda a rede, conforme pode ser visto no "Diagrama 1" abaixo. É prática comum deixar o sniffer coletando informações por um determinado período de tempo e posteriormente fazer a análise "off line". Infelizmente (ou não), o hub além de ser inseguro também aumenta consideravelmente o número de colisões, e logo, está caindo vertiginosamente em desuso. 

Diagrama 1 - Rede com hub


 Rede local com Switch

Em redes que utilizam switches a situação é um pouco mais complicada pois a janela de visibilidade é menor, conforme pode-se ver no "Diagrama 2". Boa parte do tráfego de rede acontece em unicast entre as portas e somente o tráfego que é enviado especificamente em broadcast chega até o computador com o sniffer instalado. 
Diagrama 2 - Rede com switch

 Porém como comentado anteriormente, o cenário é um pouco mais complicado, não impossível ;o) As três técnicas mais utilizadas para burlar essa dificuldade são o "Hubbing Out", o "Port Mirroring" ou "Port Spanning" e o "ARP Cache Poisoning".  Vejamos a seguir seus conceitos.

Hubbing Out

Conforme o nome sugere, coloca-se um hub entre a interface de rede do computador do "atacante" e do computador da "vítima", criando um ambiente "isolado" da rede para ambas as máquinas. Ou seja, toda a informação que chegar até esse hub (no caso, qualquer comunicação estabelecida pelo computador da vítima), será enviada em broadcast também para o computador do atacante pois o hub aumenta sua janela de visibilidade permitindo que o tráfego seja sniffado, conforme vemos no "Diagrama 3".
Diagrama 3 - Hubbing Out

Obviamente, para que esse processo funcione é preciso que o invasor possua acesso físico aos dispositivos, o que aumenta o risco de ser detectado. Geralmente esse é um último recurso, visto que existem outras maneiras de obter esse tráfego via software. Não é o melhor método, mas funciona.

Port Mirroring

O Port Mirroring é uma funcionalidade presente em switches gerenciáveis, logo, é preciso que o switch possua essa funcionalidade para que ela possa ser explorada. Consiste em mandar uma cópia dos pacotes que passam por uma determinada porta do switch (ou de toda uma VLAN), para outra porta pré-configurada, criando assim um espelhamento, conforme vemos no "Diagrama 4". Logicamente, a porta espelhada poderá rodar o sniffer. Apesar de falarmos sobre essa prática como uma técnica de invasão, ela também é muito utilizada por appliances que monitoram o tráfego da rede, como os IDSs. 
Diagrama 4 - Port Mirror

Abaixo na "Figura 3", podemos ver os comandos para mapear portas em switches da Cisco, Enterasys e Nortel:
Figura 3 - Comandos de Port Mirroring

Alguns fabricantes como a Cisco Systems se referem ao Port Mirroring como SPAN (Switched Port Analyzer). Já switches gerenciáveis da 3Com possuem a opção RAP (Roving Analysis Port), que trata-se da mesma funcionalidade.

ARP Cache Poisoning

A outra maneira de capturarmos tráfego de uma outra estação através do switch é empregarmos uma técnica chamada de "ARP Cache Poisoning" ou apenas "ARP Poisoning", onde conforme o nome sugere, faremos o "envenenamento" da tabela ARP do switch. Porém para entendermos melhor esse tipo de ataque, precisamos entender como funciona o protocolo ARP (Address Resolution Protocol ou Protocolo de Resolução de Endereços). O ARP é utilizado para descobrir endereços físicos dos dispositivos na rede. Por exemplo, se o meu computador quer usar a impressora que está no computador "192.168.1.1" e ele ainda não tem o endereço da camada de enlace desse dispositivo no seu cache ARP local, ele envia uma mensagem em broadcast para a rede perguntando "Quem tem o IP 192.168.1.1?". O computador que tiver esse IP responde com seu endereço físico "O IP 192.168.1.1 tem MAC Address 0A:6B:85:91:A3:E5", podendo funcionar também de maneira reversa (perguntar pelo MAC e obter o IP). Logo, o ARP possui basicamente 4 tipos de mensagens:
  • ARP Request (Solicitação ARP): Computador "A" questiona na rede: "Quem tem o IP x.x.x.x?"
  • ARP Reply (Resposta ARP): Todos os computadores que possuem endereço diferente de "x.x.x.x" ignoram a requisição. O computador "B", que no nosso caso possui este endereço responde: "Eu tenho o IP solicitado. Eis meu MAC Address: 00:11:22:33:44:55".
  • RARP Request (Solicitação ARP Reversa): Computador "A" questiona na rede: "Que tem o MAC Address: 00:11:22:33:44:55?"
  • RARP Reply (Resposta ARP Reversa):  Todos os computadores que possuem endereço físico diferente de " 00:11:22:33:44:55" ignoram a requisição. O computador "B", que no nosso caso possui este endereço responde: "Eu tenho o IP MAC Address solicitado. Eis meu endereço IP: x.x.x.x".
Todos os computadores da rede possuem uma tabela cache ARP contendo o mapeamento de todos os "IPs x MAC Addresses" dos dispositivos com os quais já se comunicou. Apesar de ser importantíssimo para a rede por ser um protocolo simples e eficiente, o ARP possui uma grande falha que é não ter autenticação. Ou seja, não há como autenticar o mapeamento de "IP x Mac Address" no "ARP Reply". Além disso, o host remoto não checa se está recebendo um "ARP Reply" de um "ARP Request" enviado anteriormente, o que significa dizer que, mesmo que eu não tenha feito uma pergunta ARP, posso receber uma resposta ARP de qualquer computador da rede que irá atualizar a tabela ARP do meu computador, processo conhecido como ARP Cache Poisoning ou Envenenamento de Cache ARP.

Através do ARP Poisoning é possível:

  • Fazer ataques de negação de serviço: Um usuário poderia enviar um "ARP Reply" aos hosts da rede, mapeando um IP para um MAC Address incorreto ou que não existe. Um "ARP Reply" falso mapeando o roteador a um endereço físico que não existe, por exemplo, poderia fazer com que toda essa rede parasse de se comunicar com a Internet.
  • Fazer ataques de MAC Flooding: Muitos switches de rede quando sobrecarregados, começam a agir como um hub, enviando os pacotes em broadcast para todos os hubs da rede. Um Atacante poderia “inundar” (flood) um switch com diversos pacotes de “ARP Reply”, sobrecarregando-o e fazendo-o agir como um hub, permitindo ao atacante sniffar todos os pacotes. 
  • Fazer ataques do tipo Man-in-the-Middle: Como o nome sugere, um atacante poderia colocar a máquina dele entre a sua máquina e outra máquina da rede (o gateway, por exemplo). Dessa maneira,  todas as suas informações passam pela máquina do atacante como se ela fosse a sua saída da rede, conforme podemos ver no "Diagrama 5".
Diagrama 5 - Arp Cache Poisoning

Nesse cenário, o ataque se daria da seguinte forma:
  1. A máquina “A” tem “IP-A” e “MAC-A”. O roteador “B” tem “IP-B” e “MAC-B”.
  2. O Atacante envia “ARP Reply” para “B” informando o IP de “A” com MAC address dele (“IP-A” -> “MAC-C”).
  3. O Atacante envia “ARP Reply” para “A” informando o IP de “B” com o MAC address dele (“IP-B” -> “MAC-C”).
  4. O Atacante habilita IP forwarding e passa a monitorar ou mesmo interagir no tráfego.
Vimos acima a utilidade de um sniffer e como posicioná-los nas redes. Veremos num próximo artigo como fazer um ARP Cache Poisoning na prática utilizando a ferramenta "Cain & Abel" no Windows e com o "ArpSpoof" no Linux.

Bibliografia e ilustrações utilizadas nesse artigo e indicada aos alunos: 
- SANDERS, Chris. Practical Packet Analysis - Using Wireshark to solve real-world network problems. Ed. No Starch Press. Link: Amazon

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Cristiano
"It's nothing but a network layer 8 issue"  -  "There's no place like 127.0.0.1"

segunda-feira, 11 de março de 2013

Truecrypt: Montando discos virtuais

Continuando os artigos de Truecrypt, vamos ver agora como montar um disco virtual criado com a ferramenta. Esse artigo é uma continuação desse artigo.

Montar um drive virtual é muito mais fácil que criá-lo. Para isso vamos abrir o Truecrypt e escolher uma letra de drive disponível no seu sistema onde montaremos nosso cofre. Neste exemplo, escolhemos o drive "L:" para montar nosso disco virtual. Escolhida a letra, clique na opção "Select File". Essa opção nos permitirá especificar onde está o disco virtual a ser montado, informando sua localização. 
Uma vez escolhido ele será exibido na caixa "Volume", conforme podemos ver na imagem abaixo. Aqui é interessante dizer que a caixa "Never save history" deve ficar marcada, caso contrário, na próxima vez que você entrar no programa a informação do último arquivo de volume aberto estará preenchida automaticamente, revelando a localização do seu disco protegido. Depois de escolher o arquivo a ser montado, clique em "Mount".

 Na opção de montagem, escolha os arquivos chave definidos durante a criação do seu disco virtual. No nosso caso, nossos arquivos chave são 3 dos arquivos da cartilha de segurança do CERT-Br e estão na pasta "C:\TC\".

 Insira a senha do container e clique na opção "OK".

Pronto, nosso "cofre virtual" já está montado e pronto para ser utilizado. 


Se você acionar o botão "Volume Properties"  na tela inicial do programa, diversas informações sobre o drive serão disponibilizadas, conforme podemos ver abaixo:

 

Para acessar o seu "cofre", basta abrir o "Meu computador" e acessar o drive "L:" recém montado.

Para desmontar o drive virtual após o seu uso, basta abrir a interface do programa e clicar em "Dismount". Se você desligar o computador o drive será desmontado automaticamente. Se houver uma interrupção de energia durante o uso, o drive não será montado após a reinicialização, havendo então a necessidade de montá-lo novamente.

Em futuros posts exploraremos outras possibilidades cobertas por essa ferramenta. Por enquanto com esses dois artigos, já podemos ir nos divertindo ;o)

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Cristiano
"It's nothing but a network layer 8 issue"  -  "There's no place like 127.0.0.1"

Truecrypt: Criando discos virtuais criptografados



Há muito tempo quero escrever sobre uma ferramenta de código aberto chamada TrueCrypt, mas finalmente me dei conta de que para falar sobre ela precisarei dividir o assunto em diversas partes, pois são muitas funcionalidades para um único aplicativo. Então segue a primeira parte (e só Deus sabe quando virão as demais ;o)). 

O TrueCrypt é uma ferramenta que roda na plataforma Microsoft (diversas versões de Windows), Linux e Mac OS X, para proteção pessoal ou corporativa de informações. É muito utilizado em dispositivos pessoais (notebooks, netbooks, etc), apesar de poder ser utilizado também nos desktops.  Conforme o site do próprio desenvolvedor (http://www.truecrypt.org/) o Truecrypt é uma ferramenta para criar drives virtuais criptografados e montá-los como discos reais;  pode encriptar toda uma partição ou dispositivo de armazenamento (um pendrive, por exemplo);  executa criptografia on-the-fly, ou seja, decriptografa automaticamente as informações jogadas para a memória principal (RAM) e criptografa automaticamente quando as informações são salvas (disco); permite aceleração por hardware na criptografia em processadores modernos;  permite criar volumes escondidos ou esconder sistemas operacionais entre muitas outras funções. Nenhum dado num volume criptografado com o Truecrypt pode ser lido sem que seja fornecida a senha e os arquivos chave corretos. Aliado a isso, o programa ainda conta com uma versão portátil, que pode ser executada através de um pendrive mesmo em computadores que não tenham o Truecrypt instalado (é necessário ter poderes de admin no computador para executá-lo); tem como ser melhor?

Neste primeiro artigo, veremos como criar discos virtuais criptografados, também conhecidos como “containers”, utilizando senha e arquivos chave. Para ilustrar melhor a ferramenta, pense que temos um "cofre virtual" para guardar informações. Podemos ligar o computador e trabalhar nele normalmente sem nunca utilizar o cofre virtual. Se precisarmos de uma informação que esteja dentro do cofre podemos "montá-lo" utlizando uma senha (algo que o dono sabe) e indicando um ou mais arquivos-chave (algo que o dono possui), tendo dessa maneira uma dupla autenticação. Assim, um drive com uma letra diferente do costumeiro "C:" (um drive "J:", por exemplo) aparecerá no nosso computador com as informações do cofre virtual. Todas as informações armazenadas nesse cofre estão criptografadas. Depois de usadas, basta fechar novamente o cofre. Simples né? E muito fácil de fazer, vamos botar a mão na massa (note que essa é apenas uma das suas funcionalidades, existem diversas outras).

A primeira parte é baixar o Trucrypt. Enquanto escrevo a versão estável mais atualizada é a 7.1a. Instale o programa e na sua interface clique em "Create Volume".

Ao ser solicitado o tipo de volume, clique em "Standard Truecrypt Volume" ou Volume Turecrypt Padrão.  A outra opção permite que criemos discos virtuais escondidos, destinada a usuários mais avançados. Após a escolha clique em "Next".

 Na tela seguinte, selecione a opção "Create an encrypted file container", para que possamos criar nosso disco virtual. As outras opções também são destinadas a usuários avançados e não nos servirão nesse tutorial. Após escolhido, clique na opção "Next".

Escolha as opções de encriptação a serem utilizadas no seu disco virtual. Existem diversas opções e suas diferenças podem ser consultadas diretamente na página do desenvolvedor em: http://www.truecrypt.org/docs/encryption-algorithms. Para o nosso exemplo escolheremos o Algoritmo de criptografia AES e o algoritmo de Hash SHA-512.  

Defina o tamanho do seu volume virtual. Aqui é interessante lembrar que se você tem poucas informações importantes a serem guardadas, pode criar discos pequenos que podem ser enviados por e-mail, armazenados num drive virtual na nuvem ou serem transportados num pen-drive. Se você tem grandes volumes de informações que deseja proteger, então escolha um tamanho significativo, na casa dos Gigabytes. No nosso exemplo criaremos um volume de 1GB.

Crie uma senha segura digitando-a na caixa "Password" e na caixa "Confirm".  Aprenda a criar senhas seguras aqui. Se a senha digitada tiver menos de 20 caracteres, será exibida uma mensagem avisando que senhas maiores são mais seguras. Depois que a senha for digitada em ambas as caixas clique no botão "Keyfiles...".

Esta é uma opção interessantíssima do programa. Ela permite que o usuário configure o drive usando uma senha e definindo os "arquivos chave" corretos para sua criação. Essa é uma camada extra de proteção (autenticação dupla) pois além de exigir que o usuário saiba a senha correta, é preciso que saiba também se foram definidos arquivos chave e os apresente para poder montar o drive. No exemplo abaixo cliquei na opção "Add Files..." e defini 3 arquivos pertencentes a cartilha de segurança do CERT-Br como arquivos chave para o meu "cofre". Futuramente, sempre que precisar montar esse drive, precisarei desses arquivos, portanto seja lá quais forem os arquivos que você utilizar, não perca-os.

 Na opção seguinte é possível especificar qual o sistema de arquivos a ser utilizado no drive, bem como o tamanho dos clusters. Escolha preferencialmente o sistema de arquivos NTFS e deixe o tamanho de cluster padrão.

Na tela seguinte, defina onde será armazenado o disco virtual. Após definida a opção, clique em "Next".

Antes do volume ser formatado, mova o mouse pela tela para aumentar a força da criptografia das chaves de encriptação e clique em "format".

Ao término da formatação, o programa avisa de que o disco virtual foi criado. A partir desse ponto, criamos um disco virtual que está pronto para se utilizado. Num próximo artigo, veremos como montá-lo. 

Ao término, entre na pasta onde foi criado o disco virtual e veja que existe um arquivo de 1GB de nome "disco_TC".
AVISO:  Note que não e recomendado deixar seus arquivos chave armazenados junto do seu volume.

Se você armazena no seu computador informações como números de cartões de crédito, planilhas financeiras pessoais, documentos scaneados, recibos de imposto de renda, fotos que não devam ser divulgadas, segredos empresariais, etc, que tal criar um cofre virtual para manter suas informações protegidas? ;o)

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Cristiano
"It's nothing but a network layer 8 issue"  -  "There's no place like 127.0.0.1"
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